
"Andei atrás de Che Guevara em Angola"
Tarefa dolorosa. Eram os mecânicos como eu quem saia dos helicópteros para recolher os cadáveres dos nossos camaradas. Contei mais de 60.
Saí dos Pupilos do Exército e fui para França tirar o curso de rádio de helicópteros Alouette III. Depois, fui mobilizado para Angola e colocado na Base Aérea 9, em Luanda, integrado na Esquadra 94. Depressa esqueci algumas teorias, pois no mato a realidade era bem diferente e sujeita a muitas condicionantes. Nas evacuações, éramos nós – os mecânicos, no meu caso de rádio –, que saíamos com a maca para recolher os feridos e os mortos. Era uma tarefa dolorosa.
Foram vários os Alouettes furados por projécteis inimigos mas, por sorte ou perícia dos pilotos, nenhum foi abatido. Alguns caíram por avaria e outros porque queríamos socorrer as nossas tropas em sítios inacessíveis, muitos na mata angolana. Só de uma vez morreram seis camaradas, um dos quais me pediu, à última da hora, para ir no meu lugar.
Durante as missões, todos os tripulantes se uniam nas adversidades, inventávamos e com espírito de humor, mas com responsabilidade, dizíamos: 'Isto está preso por arames, mas voa!' Foram vários os casos em que os rotores das caudas partiram e as aeronaves caíram no chão como pedras. Uma vez, numa operação de resgate de vítimas, o helicóptero teve uma grave avaria e valeu-nos a perícia do piloto que conseguiu desligá-lo no ar. Acabamos por cair desamparados na mata. Felizmente, ninguém morreu.
No primeiro ano de comissão (1965/66), os militares mortos no Ultramar não tinham direito a transladação para a Metrópole e nós não os podíamos transportar. Infringindo as normas, arranjávamos maneira de os resgatar, mais que não fosse para lhes fazermos um funeral digno. Colocávamos os cadáveres nas aeronaves e depois dizíamos que os homens tinham morrido a bordo.
Como fazia parte da tripulação de helicópteros, vi a guerra do Ultramar do ar. Só descia à terra para resgatar os feridos e os mortos, uma missão talvez mais complicada do que combater com as forças inimigas no meio do mato. Tínhamos de contar os mortos e só pela minha mão passaram mais de 60. Foi terrível e hoje ainda acordo a meio da noite a sonhar com esses momentos trágicos. A maior parte dos corpos de homens caídos em combate foi levada para Nambuangongo, cujo cemitério depressa ficou lotado. Em 1966, restabelecendo a mais elementar justiça, o Estado passou a assegurar o seu transporte de regresso à Pátria.
A nossa principal actividade desenvolveu-se na zona dos Dembos. À medida que as operações militares decorriam, saíamos ao nascer do dia de Luanda e só no ar é que recebíamos instruções sobre o nosso destino. Ficávamos nos acampamentos do Exército, em melhores ou piores condições, mas todos juntos: oficiais, sargentos e cabos especialistas. Éramos quem levava os militares, sobretudo os pára-quedistas, para os teatros de operações. Para os colocar no mato, cada Alouette transportava cinco tropas, além do piloto e de um mecânico.
No interior do helicóptero assisti às cenas de desespero daqueles que tinham de saltar para a selva, alguns deles para a morte. Muitas das vezes eram empurrados porque não tinham coragem para se atirar. Alguns partiram pernas ao chegar ao chão, porque a vegetação era alta e o helicóptero não podia baixar mais. Quibala Norte, Bela Vista, Santa Eulália, Quibaxe, Quicabo, Piri, Zala Úcua e a mítica Nambuangongo foram as zonas que mais nos serviram de base.
No terceiro trimestre de 1965 falou-se que Ernesto Che Guevara estava a combater na fronteira do Congo com Angola. Para nos certificarmos da veracidade da informação fomos para São Salvador do Congo. Participámos em várias operações na zona, por exemplo em Cuimba e Serra da Canda, mas nunca obtivemos qualquer confirmação. O mítico guerrilheiro refere no seu livro ‘Congo’ que estava lá nessa altura, mas a combater ao lado dos oponentes a Mobutu.
No terceiro semestre de 1966, com a ida da facção Chipenda para o Leste, a guerra agravou-se na zona. Disseram-nos que íamos para lá por oito dias, mas só fomos substituídos ao fim de 45. Estabelecemo-nos no recém-formado aeródromo-base no Cazombo e daqui partíamos para onde fosse necessário. Andámos pelos ‘cus de Judas’ – magistralmente descritos por António Lobo Antunes – estivemos em Lumbala e noutras terras perto da fronteira da Zâmbia. Nessa zona, os Fuzileiros e os Comandos foram os nossos principais companheiros. Levávamos os feridos para o Luso. A Esquadra 94 foi constituída em 1963 e continuou operacional até deixarmos Angola. Quem por lá passou jamais a esquecerá.
DO HELICÓPETRO PARA A RÁDIO
Quando regressou, Amílcar Pires ficou mais seis meses na Força Aérea e depois foi para a Emissora Nacional como técnico de rádio. Casou com uma mulher que conheceu em África. Tem uma filha, de 36 anos, médica, e teve um rapaz, que faleceu com 19 anos (1987), atropelado por um camião em Alcácer do Sal. Estudava Medicina. Enquanto trabalhava na rádio tirou o curso de Direito, mas exerceu pouco. Entretanto, ingressou na Função Pública, foi chefe aduaneiro do Aeroporto de Lisboa e reformou-se, em 1999, como director da Alfândega do Funchal.
Memórias. Ainda hoje, passados 46 anos, revejo muitas vezes os militares cavando a sepultura e deitando o caixão à cova. Foram dias terríveis.
Estava uma tarde cinzenta e triste, como outras no Outono. Mas mais tristes ainda estavam os familiares que foram despedir-se de nós, sem qualquer certeza de voltarem a ver-nos. No Cais da Rocha do Conde de Óbidos só havia tristeza e lágrimas, em mais uma partida do navio ‘Vera Cruz’ para Angola. Chegámos a Luanda a 9 de Dezembro de 1962, ainda de noite. Tudo nos parecia escuro, mas o dia rompeu com os movimentos próprios de uma cidade em grande desenvolvimento.
Estivemos três dias no Grafanil, um quartel a 10 km de Luanda, onde os mosquitos gigantes pareciam apostados em sugar-nos o sangue. Dali para o Norte foi um salto. O batalhão foi ocupar a zona da Pedra Verde, a 120 km da capital, ficando uma companhia em Piri (a 389), outra no Pango Aluquém (a minha) e as outras duas (companhias de Caçadores 388 e de Serviços) em Úcua.
O primeiro mês foi passado em acções de reconhecimento, de fazenda em fazenda, algumas delas abandonadas. Em meados de Janeiro de 1963 sofremos a primeira baixa, num acidente de viação. A inexperiência do condutor – mal preparado durante a instrução –, o terreno acidentado e o piso escorregadio levaram à morte de um soldado. Sendo alferes, fui nomeado oficial comandante da coluna que acompanhou o funeral até Quibaxe. Ainda hoje, passados 46 anos, revejo muitas vezes os militares cavando a sepultura e deitando o caixão à cova.
Algumas semanas depois, sofremos a maior emboscada de toda a comissão e que se traduziu em cinco mortos (um furriel e quatro soldados), um ferido (furriel) e dois desaparecidos (cabos). Notícias posteriores, que não conseguimos confirmar, davam conta de que um deles tinha sido morto e o outro estaria a dar instrução a soldados negros, no Congo.
Foi uma manhã horrível, com fogo durante uma hora. Os turras deixaram vários mortos no terreno e muitos rastos de sangue. O capim, mais alto do que um homem, dava até à picada. Quando saltaram para a mata, os dois cabos foram logo capturados e feitos prisioneiros – a coisa que mais temíamos, por sabermos as torturas que nos esperavam. Perdemos ainda seis armas mas o inimigo não conseguiu levar a metralhadora, montada numa viatura Unimog.
Este ataque foi comandado pelo célebre António Fernandes, que veio a ser morto pelas tropas portuguesas e que era conhecido por ‘Mata-Alferes’. Ao primeiro tiro matava sempre um graduado. A sua arma de guerra era uma carabina que havia ganho num concurso de tiro em Portugal.
Na nossa zona havia outro mulato, filho de um fazendeiro branco e de uma negra, do mesmo género (ambos usavam carabinas de caça). Este tinha a cabeça a prémio, por ordem do pai.
Os meses foram passando, com várias emboscadas nas picadas e nas matas, com mortos e feridos de ambos os lados. Recordo, entre outros, o cabo Baptista e o soldado ‘Feio’. No triângulo Piri-Úcua-Pango, numa operação em que capturámos vários inimigos, um soldado veio ter comigo e mostrou-me um frasco com orelhas e dedos de guerrilheiros conservados em álcool. 'É para levar de presente ao nosso comandante', explicou.
Na zona de Úcua, perto do rio Dange, fizemos uma operação em que esteve o então capitão Jaime Neves – oficial valente e querido dos seus homens. O calor era muito e não havia água. Fomos sobrevoados por duas ou três avionetas, que nos atiraram bidões com água. A maior parte rebentou ao tocar o solo.
Noutra operação, na região de Bula Atumba, ao anoitecer, estávamos no cimo de um morro, prontos para pernoitar, quando apareceu um guerrilheiro com um preto bailundo de mãos amarradas. Transportava uma caçadeira e pretendia matar o bailundo. O rapaz atirou-se para o meio dos militares e gritou: 'Menino amigo! Menino amigo!' Um cabo do pelotão caiu--lhe em cima e dominou-o com facilidade. Acabou por ficar connosco e, mais tarde, foi enviado para a sua terra, na zona de Nova Lisboa.
Depois de um ano de guerra no Norte de Angola, fomos para o Leste, onde fizemos patrulhamentos apeados e em viaturas, na zona em volta do Marco 25, reconhecimentos e reconstrução de pontões. O inimigo projectava abrir uma nova frente de batalha, e nós sabíamo-lo. Foi por isso que apareceu no destacamento do Marco 25 o então tenente-coronel Spínola. Só com o condutor, andava em missão de reconhecimento, pois havia a possibilidade de o seu batalhão entrar em acção de sobreposição ao nosso.
PASSA O TEMPO A PESCAR E A LER
Carlos Venâncio Domingues Bilro é natural e residente em Montemor-o-Novo. Ingressou na Faculdade de Letras mas viu-se forçado a interromper os estudos – que nunca mais retomou – por causa da vida militar. Casou seis meses depois de regressar do Ultramar e teve dois filhos. Em termos profissionais, foi quadro administrativo da CUF, em Lisboa e Beja. Hoje que está reformado e viúvo, divide o seu tempo entre as leituras e a pesca com os amigos. Guarda muitas recordações da guerra, cujos episódios mais duros – como reconhece – nunca mais conseguiu esquecer.
Foi tudo muito difícil. Não havia qualquer estrutura. O isolamento era total e a logística precária. E o inimigo estava cada vez mais activo na região.
A 26 de Outubro de 1972 embarquei de avião para a Guiné, em rendição individual, com destino à Companhia de Caçadores 4540, que já se encontrava no Norte, em Bigéne. Mandaram-me com uma guia de marcha e transporte em coluna terrestre. Se quem emitiu a ordem soubesse as dificuldades para chegar por aquele meio, tenho a impressão de que ainda hoje lá andaria à procura de uma coluna militar. Valeu-me que, em Bissau, encontrei um sargento algarvio meu amigo, que se prontificou a ir comigo ao quartel- -general e responsabilizar-se pelo meu transporte. Era da Marinha e, precisamente nessa semana (finais de Outubro), deslocava-se a Bigéne para efectuar um reabastecimento à companhia. Foi assim que cheguei à minha guerra.
Estávamos a 12 de Dezembro de 1972 quando desembarcámos, a bordo da lancha Bombarda, em Cadique, na península dos rios Cumbijã e Cacine. A nossa missão era recuperar a zona de Cantanhez ao PAIGC. A operação ‘Grande Empresa’ foi concluída com sucesso e com o auxílio da Força Aérea Portuguesa, com um bigrupo da Companhia de Caçadores Pára-quedistas 121. O general António de Spínola, governador e comandante-chefe das Forças Armadas, acompanhou sempre de perto o desenrolar das movimentações das tropas, terminadas a 17 de Agosto de 1973.
Foi tudo muito difícil. Não havia qualquer estrutura montada. O isolamento era total e a logística precária. Fomos desbravando a densa mata e depois, com a ajuda de máquinas de engenharia militar, construímos as nossas ‘fortalezas’: uns pequenos buracos feitos no chão, tapados com paus de palmeiras e terra por cima. Abrimos estradas, poços e construímos um heliporto e um cais. Estávamos cercados por uma extensa bolanha e pela a mata de Cantanhez, até à aldeia de Jemberém. A Norte passa o rio Bixanque, que desagua no Cumbijã, e a Sul o rio Macobum. Um pouco mais distantes ficavam as aldeias de Cadique Nalú e Cadique Imbitina e, mais a Norte, Cadique Ial.
A minha companhia esteve quase sempre acompanhada por companhias de Pára-quedistas, Fuzileiros e Comandos. Logo nas primeiras missões no terreno fomos atacados pelos turras, situação que se manteve quase todos os dias. O inimigo estava cada vez mais activo na região de Cantanhez. Para pôr cobro à situação foi decidido construir uma estrada entre Cadique e Jemberém, obra a cargo de uma companhia de Engenharia Militar. A nossa missão era garantir a segurança dos militares e civis que ali trabalhavam.
No dia 10 de Junho de 1973, em Cadique, fomos atacados com canhões e morteiros. Estávamos a descarregar a lancha Bombarda, que tinha ido reabastecer as nossas tropas. Não houve vítimas, mas muita destruição. As nossas tropas reagiram ao fogo do inimigo. Estava eu a chegar ao acampamento numa Berliet, carregada de mantimentos que tinha ido carregar à lancha, quando, subitamente, fomos atacados com artilharia pesada já dentro do acampamento. Fiz alguns cálculos mentais rápidos, para ver onde estavam os inimigos, e disparei um morteiro de 81 mm, que acertou em cheio na sua base de fogos. Fez-se um silêncio profundo de ambos os lados. Recebi um louvor por esta minha acção.
Após a construção da estrada, deixámos Cadique. Para trás ficaram também várias tabancas e ajudámos a desenvolver a região de Cantanhez. Lá ficou um pedaço de nós todos e do nosso suor e muitas lágrimas derramadas e partilhadas com os nossos pais, que aguardavam o nosso regresso. Lembro-me como se fosse hoje, quando se ouvia o helicóptero a chegar com os nossos aerogramas. Eram notícias da civilização que se dissipavam à medida que se deixava de ouvir a máquina voadora. Dizia um, ‘olha, o meu filho já diz papá’, dizia outro, com a voz meio chorosa, que a namorada não aguentava mais a longa separação e que sua mãe estava a passar mal. Tudo isto marcou-nos e, como disse o capitão Manuel Varanda Lucas, 'pedaços de nós todos ficaram indissoluvelmente ligados para sempre a Cadique'.
Em finais de Agosto 1973 regressámos a Bissau e fomos colocados, a 8 de Setembro, em Nhacra, ficando eu a comandar a secção de Ensalmá, no controlo das viaturas que circulavam numa pequena estrada com uma ponte, que ligava aquelas duas localidades, próximo de Bissau. Em 25 de Agosto de 1974 regressei à Metrópole no paquete Uige e cheguei a Lisboa passados cinco dias. Passei à disponibilidade a 22 de Setembro de 1974, como furriel miliciano de Operações Especiais (Ranger).
'COMECEI CEDO A TRABALHAR'
O ex-combatente é natural da freguesia da Conceição, Tavira, distrito de Faro. Tem o 12.º ano. Casou em 22 de Março de 1975 e tem uma filha, nascida a 8 de Março de 1980 (Dia Internacional da Mulher). 'Comecei cedo a trabalhar como escriturário na Junta Autónoma de Estradas, onde iniciei funções a 19 de Dezembro de 1969. Passei para o Ministério das Finanças – Direcção-geral dos Impostos – Direcção de Finanças de Faro, a 18 de Novembro de 1994 com a categoria de chefe de repartição de administração geral e hoje tenho a categoria de técnico superior principal.'
António Manuel Santos, Guiné 1972/1974
Reviravolta. No início tudo parecia calmo mas de repente o cenário mudou e a guerra chegou terrível, causando dezenas de mortos e feridos.
No dia 25 de Outubro de 1972 parti para a Guiné. A nossa companhia era a ‘Piratas de Guileje’, comandada pelo capitão Abel Quelhas Quintas. Já em Bissau, seguimos para Cumuré e duas semanas mais tarde, numa lancha, para Gadamael, de onde partimos para Guileje. Aqui, de início, tivemos momentos calmos, os dias eram passados em patrulha e eu aproveitava para fazer o pão, que todos comíamos. Mas, com o passar do tempo, tudo piorou.
Certo dia, íamos num caminho perto do quartel, para ir buscar o que comer, quando fomos alvo de uma emboscada. O inimigo começou a disparar tiros e tinha fornilhos – uns buracos onde se colocam os detonadores. Nesse dia morreu um camarada e quatro ficaram feridos. Noutro, estávamos num abrigo subterrâneo, fomos atacados com bombas e o nosso furriel acabou por falecer. Ficámos sem centro de comunicações, porque as antenas foram destruídas, o que nos colocou numa situação complicada, pois não tínhamos possibilidade de contactar ninguém. Noutro momento fomos flagelados com canhões sem recuo e, para que pudéssemos escapar, o nosso capitão Abel Quintas contactou a Força Aérea, que lhe indicou a posição de saída. Ele ficou ferido, atingido por um míssil.
Durante a minha comissão em Guileje-Gadamael assisti a horrores, perdi muitos camaradas em emboscadas e vivi os piores momentos da minha vida quando estivemos 30 dias debaixo de fogo com o coronel Durão. Não conseguíamos descansar, comer, dormir ou mesmo beber água. Éramos obrigados a ir para as valas de água, para fugirmos aos ataques. O pouco que comíamos era debaixo de fogo. Houve dias em que chegaram a morrer à volta de 14 camaradas. Alguns, com a aflição para tentar fugir, atiraram-se ao mar e, como não sabiam nadar, acabaram por morrer afogados. Ainda hoje me recordo frequentemente desta tragédia, que pouco ou nada consegui fazer para evitar pois, como eram muitos, não os consegui tirar a todos da água.
Quando abandonámos Guileje, por ordem do major Coutinho e Lima, seguimos para Gadamael, onde voltámos a viver outro Inferno. Não havia casamatas – abrigos subterrâneos –, apenas valas normais. Os bombardeamentos eram tão intensos que, onde estávamos, ouvíamos as granadas a sair das armas e, passados poucos segundos, caiam em cima de nós. Muitos camaradas ficaram feridos ou morreram, num estado deplorável. Lembro-me de ver alguns com o crânio completamente desfeito. Na enfermaria, os cadáveres eram tantos que o cheiro se tornava, a cada hora que passava, mais insuportável. Durante o dia tínhamos de regar os corpos com creolina para diminuir o odor a putrefacção.
Numa saída com o alferes Branco, que nos mandou emboscar, ouvimos um barulho vindo do mato e atirámo-nos para o chão, percebendo que estávamos na iminência de ser atacados. O alferes foi atingido na cara por uma rajada. A nossa salvação foi a chegada de um grupo de pára-quedistas. Quando chegaram, encontraram quatro corpos: o alferes Branco, o cabo Neves e os soldados Serafim e Anselmo.
No dia 25 de Março de 1973 fomos atacados pelo inimigo, em plena luz do dia, contrariando o que acontecia na maior parte das vezes. Este ataque foi um chamariz, pois o inimigo sabia que uma acção destas teria como consequência o aparecimento da Força Aérea. E surgiu um avião a jacto Fiat G-91. O piloto entrou em contacto com Guileje, via rádio, para receber indicações da distância e da direcção de onde partira o fogo inimigo. Este avião partiu e não voltou a contactar. Passados uns 20 minutos apareceu outra aeronave que constatou que a primeira tinha sido abatida por um míssil.
Entre 31 de Maio e 2 de Junho do mesmo ano caíram umas 700 granadas, provocando baixas nas nossas tropas: cinco mortos e 14 feridos, para além dos enormes danos materiais. Nessa altura foi accionado o reforço das guarnições com tropas pára-quedistas.
Os abrigos estavam superlotados, pois abrigavam a população e as tropas, que tinham dificuldade em chegar às valas. As condições de higiene eram extremamente precárias e o cheiro nauseabundo. Não conseguíamos descansar e a população alimentava-se apenas de ração de combate. Foi uma guerra terrível, a que enfrentei durante a minha comissão.
NAMORADA TINHA 14 ANOS
José Pereira Lopes é natural de Condeixa-a-Nova, distrito de Coimbra, e é oriundo de uma numerosa família de 10 irmãos. Aos 12 anos viu-se obrigado a começar a trabalhar como padeiro, profissão que exerce ainda hoje, para ajudar no sustento da família. Quando partiu para a Guiné deixou ficar em Portugal a namorada, que na altura tinha 14 anos. Hoje, continua casado com a 'namorada' , que esperou por ele, e têm uma filha e duas netas. Fez a recruta em Beja, antes de partir com a Companhia de Cavalaria 8350, ‘Piratas de Guileje’, para a Guiné. n n
José Pereira Lopes - Guiné 1972/74
Tristeza. No dia em que a via foi inaugurada houve três emboscadas e morreram dois soldados. Eram de uma companhia de regresso à metrópole.
O desembarque na Guiné aconteceu a 12 de Maio de 1969 no cais do Pidjiquiti. Um dia triste e desolador: apenas se viam viaturas militares, soldados e estivadores. Depois, fomos para Brá, seguimos com destino a Buba e partimos para Mampatá, no Sul, com a missão de proteger os trabalhos de engenharia na nova estrada que ligava Buba a Aldeia Formosa, perto da fronteira com a Guiné-Conacri. O meu baptismo de fogo deu-se logo na primeira deslocação da companhia para Mampatá.
A deslocação foi muito penosa, pois – a acrescentar ao primeiro contacto com o inimigo – tivemos de contar com o imenso calor que se fazia sentir e a falta de água, que bem cedo acabou. Chegámos ao destino descia o Sol no horizonte e fomos surpreendidos com a inexistência de instalações militares. Por isso, montaram-se tendas de lona, cada uma para albergar uns 20 militares. Íamos começar a guerra sem o mínimo de condições. Alguns nativos, apercebendo-se do que estava a acontecer, convidaram soldados para se instalarem nas suas tabancas, contrariando Aliu, o chefe, que receava a junção dos militares com os nativos. Mas foi surpreendente a convivência que se gerou logo no primeiro dia entre ambos. Após algum tempo a dormir no chão, cada um construiu a sua própria tabanca.
O rasgar da floresta iniciou-se a partir de Sare Usso e a minha companhia começou a sua actividade operacional. Todos os dias, grupos de combate picavam a estrada nas deslocações para os trabalhos, seguidos das máquinas de engenharia. Só em Maio houve várias flagelações, bem como rebentamentos e levantamentos de minas. Houve mortos e feridos em emboscadas. Na primeira coluna de reabastecimento, na inauguração da via, registaram-se três emboscadas. Foi um dia triste, havendo a lamentar a morte de dois soldados e vários feridos numa companhia que estava de regresso à Metrópole. Ficámos tão afectados que nunca mais se fizeram colunas naquela estrada.
Durante a desmatação, efectuada por 700 trabalhadores Balantas e a protecção efectuada no flanco Sul, onde diariamente havia flagelações, tombou, fulminado por um tiro, o soldado Caetano e outros sofreram ferimentos graves. Estávamos com um mês de actividade e o inimigo não dava tréguas, aumentando o número de emboscadas, tanto às colunas como em flagelações a Mampatá. No tempo que durou a comissão, o inimigo atacou inúmeras vezes, com armas ligeiras, morteiros e roquetes, a tabanca de Mampatá, bem como procedeu à colocação de muitas minas na estrada para Buba. É difícil resumir o Inferno que vivemos dentro e fora do arame farpado.
Além de outras missões, realizávamos operações de dois e três dias. Mesmo assim, com tantos contactos com o inimigo, acabámos por ter sorte, pois tanto no levantamento como na colocação de minas quase sempre tudo correu bem. Mas não me esqueço do dinheiro que ganhei no levantamento de minas e ofereci ao cabo enfermeiro Alves, que ficou sem um pé no rebentamento de uma, colocada por mim, numa picada utilizada pela companhia.
Um dia, após a picagem da estrada para o início de uma coluna, quando só faltavam passar duas viaturas para regressarmos a Mampatá, chamei o Nobre para verificarmos, num trilho, se as cinco minas antipessoais montadas por mim já tinham ou não rebentado. Percorridos 20 metros, ouvimos um grande estrondo e de imediato verificámos a destruição de uma viatura, a morte de três nativos e ferimentos em nove camaradas. Uma vez mais fui protegido pela sorte, pois estive ali sentado durante mais de duas horas à espera que a coluna passasse.
Não me esqueço ainda do levantamento de uma mina anticarro e de outras que se seguiram, colocadas nas bermas da picada. Recordo o alerta dos soldados: ‘furriel não se mexa porque tem uma mina a centímetros do pé!’ Lembro ainda um contacto directo com o inimigo em que sofremos um ferido. Por estarmos perto de Mampatá, saiu em nosso socorro uma força que teve de enfrentar dois combates e deixou três mortos no terreno. As nossas tropas registaram cinco militares com tiros nos braços e pernas.
Regressámos à Metrópole a 11 de Março de 1971, deixando a funcionar uma escola, um heliporto, uma cantina, uma cozinha, um depósito de géneros e um balneário, entre outras infra-estruturas. n
DEPOIS DA GUERRA O KARATÉ
A Companhia de Artilharia 2519, formada em Évora e comandada pelo capitão Jacinto Barrelas, partiu para a Guiné a 5 de Maio de 1969, no paquete Niassa. Sempre foi motivo de preocupação do capitão trazer de volta todos os seus homens com vida. Infelizmente tal não se verificou. Arlindo Tadeu começou a praticar karaté após regressar de África, há mais de 30 anos, no Judo Club de Portugal. Hoje é 2.º dan. Aposentado como técnico superior na área da Segurança Social, é casado e natural de Folgosinho, Gouveia, no coração da Serra da Estrela.
Arlindo Tadeu - Guiné 1969/1971
Perigo. Vivi duas guerras: como sapador de Infantaria e depois, finda a minha comissão, durante os confrontos por altura da Independência.
Não posso dizer que fui mobilizado para Moçambique, pois já lá vivia desde os cinco anos, intercalando com seis anos de estudo na Metrópole, onde fui ‘às sortes’. Em Moçambique, passei pela Escola de Aplicação Militar, em Boane, onde frequentei o primeiro curso de Oficiais Milicianos que teve lugar naquela ‘Província’. Como aspirante, e depois como alferes miliciano, percorri quase todo o território.
A minha passagem obrigatória por aquela guerra absurda pautou-se por uma sorte incrível, apesar de ter tido a ‘simpática’ especialidade de Sapador de Infantaria. Tive a meu cuidado a recuperação e construção de pontes, edifícios e demais obras de interesse, grande parte danificadas pelo inimigo. Felizmente para mim, somente em Nancatar, perto de Mueda, senti a atmosfera pesada da guerra ao ser para ali destacado, para reparação de pontes danificadas por ataques semanas antes da minha chegada. Escutei ali os sons próximos da guerra em Mueda e os rebentamentos das minas colocadas em redor da povoação, accionadas pelos animais selvagens em noites de sobressalto.
Terminei a minha comissão em Março de 1970, depois de ter entrado na Escola de Aplicação Militar, em Boane, nos finais de Julho de 1966.
A partir dali, uma nova vida começou. Já casado e com uma filha, acabei o curso de Engenharia que fora obrigado a interromper, ao mesmo tempo que trabalhava.
Depois do 25 de Abril, aconteceu então o que considero a minha segunda guerra.
Pela História é sabido que, pouco antes da independência, a 7 de Setembro de 1974 e nos dias que se seguiram, Lourenço Marques (Maputo) ficou a ferro e fogo, com tentativas bélicas de tomada de poder. Num desses dias, sem saber como, encontrei-me no meio de um tiroteio cerrado entre soldados da FRELIMO e polícia, no recinto exterior duma empresa. Naquela altura as secretárias e caixotes de papéis serviram lindamente como trincheiras. Nenhum de nós se feriu mas, passada que foi a contenda, alguns corpos de civis eram vistos caídos nas ruas envolventes. Havia que regressar a casa quanto antes, mas em segurança. Eu vivia numa povoação – Machava, que ficava a 12 km da cidade – e tinha melhor acesso através de uma estrada que apelidávamos de via rápida. Como referência, à saída ficava o aquartelamento que pertencera à nossa Polícia Montada e era ladeada por residências modestas de africanos e algumas empresas e lojas (cantinas). Após a calmaria que se seguiu ao tiroteio, e como a situação tendesse a piorar, tentei contactar o meu pai, pedreiro de profissão, no seu local de trabalho, mas não consegui, por mais voltas que desse a seguir. Regressei a casa, sem problemas, embora já se sentisse no ar que algo grave iria acontecer nesse percurso.
Ódio, pavor, morte, irracionalidade, foi o que ali se passou. A descrição foi feita pelo meu pai, que lá passou meia hora mais tarde. De referir que naquelas instalações da polícia estavam soldados portugueses com a missão de vigilância e segurança. A vista para a via rápida era total e o meu pai quando chegou, vendo ao longe multidões ameaçadoras de africanos, dirigiu-se aos soldados que lhe disseram que podia passar, pois nada lhe aconteceria. Bem… para o meu pai começou ali o inferno de onde o próprio diabo teria fugido. Foram dezenas de paragens forçadas pelo gentio bramindo catanas, ferros, machados, desferindo golpes aqui e ali, massacrando, esquartejando e queimando vivos dezenas de brancos dentro das viaturas. Tal como ele, todos tinham acreditado na palavra dos nossos militares. O meu pai teve a vida por um fio, mas foi salvo por um africano que o protegeu, na altura em que uma catana caía sobre ele. Ao chegar, quase em estado de choque, vimos que a chave de ignição do carro estava a quebrar, de tanto ser usada.
Presto a minha homenagem de gratidão aos Fuzileiros Navais portugueses que, na madrugada seguinte, nos foram resgatar na nossa casa onde, entre adultos e crianças, estavam 32 almas e nos levaram para a sua base, onde ficamos três dias. Quis fazer daquela terra a minha terra e não me deixaram. Houve um trabalho mal feito na 'descolonização exemplar', pois deixou que o caos prevalecesse. Recordo muitas vezes o antigo soldado africano do meu pelotão de Nancatar que, já no aeroporto, fardado de polícia, me abraçou a chorar, pedindo para não deixar Moçambique.
ENSINA EM COLÉGIO DE LEIRIA
José Fernando Rodrigues Vieira reside no Vidigal, concelho de Leiria, e é professor de Educação Tecnológica no Colégio Conciliar Maria Imaculada. Tem 65 anos, é casado e tem dois filhos, de 36 e 38 anos, e um neto de quatro anos que dentro de dias vai ter uma irmã. Viveu em Moçambique, na cidade de Machava, entre 1949 e 1976. Licenciado em Engenharia, manteve-se em Moçambique após a guerra, só regressando a Portugal por naquele país não existirem condições médicas e assistenciais para cuidar de uma filha que sofria de uma doença crónica. n
José Fernando R. Vieira, Moçambique 1966/1970
Minas. Eram a principal arma do inimigo e aquela que causava mais estragos. Após um ano maravilhoso o meu pelotão foi para uma área de combate.
Embarquei no ‘Vera Cruz’ a 12 de Janeiro de 1966 com destino a Lourenço Marques e, de seguida, partimos para Mocuba, na província da Zambézia, a 120 km de Quelimane, para o Interior. O primeiro ano, sem guerra, foi maravilhoso. O pior foi quando fomos destacados para Mueda e, mais tarde, para Nangulolo.
Dois dias depois do Natal de 1966 fomos para Mueda, na província de Cabo Delgado, e, devido a um castigo, o meu pelotão foi mandado para a Missão de Nangulolo, onde a guerra era dura. A transferência resultou do seguinte: no dia de Páscoa, um furriel foi para o aldeamento e uns indivíduos espetaram-lhe uma facada. Por causa disso, fomos buscar as armas e preparávamo-nos para incendiar a aldeia. Mas o comandante apercebeu-se, impediu-nos de sair e castigou-nos, enviando-nos para Nangulolo. Estivemos lá oito meses, até ao fim de Novembro, onde vivemos a verdadeira guerra.
Todos os dias ia uma patrulha para o mato. Tratava-se de uma zona muito minada, em que o inimigo se ocultava e criava barreiras, muitas vezes tão bem armadilhadas quanto mortíferas. Nessas alturas aconteceu-nos, de facto, muita coisa: ataques, emboscadas, acidentes e quedas em ciladas, de que resultaram a morte de oito camaradas, incluindo
o nosso comandante de pelotão, o alferes Carvalho.
Uma vez fomos fazer uma patrulha e, a determinada altura, ouvimos uns barulhos estranhos. O alferes mandou-nos parar e verificámos então que eram guerrilheiros que se encontravam em cima de uns coqueiros a deitar cocos cá para baixo. Cercámo-los. O alferes mandou-os descer, mas eles não obedeceram. Por isso, demos duas rajadas e caiu tudo no chão. Quando chegamos ao quartel, o alferes fez o relatório da patrulha e entregou-o. Ao lê-lo, o nosso comandante perguntou onde estavam os mortos e obrigou-nos a ir buscá-los às costas, para que se lhes fizesse um funeral digno. Fazia-se sempre um funeral religioso a todos, num cemitério que construímos, fossem camaradas ou inimigos.
A situação mais complicada que vivemos foi no dia 22 de Agosto de 1967. Numa picada, entre Nangulolo e Midume, o nosso pelotão e um de reforço sofreram um ataque tremendo. A arma fundamental do inimigo eram as minas comandadas, altamente mortíferas. Foi num domingo. A páginas tantas, uma dessas minas atingiu-nos pela retaguarda, matando o nosso mainato – o rapaz que transportava o rádio às costas. Supomos que a ideia dos guerrilheiros fosse mesmo destruir o aparelho para que ficássemos sem comunicações. O moço ficou todo desfeito. Aliás, nós estávamos a passar numa zona de densa vegetação, por baixo de árvores que formavam uma espécie de túnel, e só demos que alguém tinha morrido quando os bocados de carne começaram a cair das árvores. Foi infernal.
Marcante também, pela negativa, foi uma das últimas patrulhas em Nangulolo. Como sempre, o nosso alferes Carvalho, que comandava o pelotão, ia à frente. Era uma pessoa extraordinária, como homem e como militar. Era natural de Évora, encontrava-se casado, com um filho pequenino, e a mulher – professora em Lourenço Marques – já estava à espera dele, porque estávamos mesmo no fim da comissão em Moçambique.
Nessa patrulha, embateu num tropeço (chamavam tropeços a umas armadilhas compostas por minas e granadas, que atravessavam em pontos de passagem). Ainda se apercebeu, gritou para que o pessoal se deitasse, mas levou com a explosão da granada em cheio e morreu. Foi um acontecimento que causou grande consternação em todo o aquartelamento, sobretudo entre os camaradas do pelotão. Posso dizer que, no outro dia, só se via soldados a chorar pela morte dele. Ainda hoje, mais de 40 anos passados, comovo-me quando penso nisso.
Não me recordo de mais nenhuma patrulha depois desta tragédia. Aliás, dois dias antes, o brigadeiro que nos tinha castigado visitou o aquartelamento e louvou muito o nosso trabalho e prometeu tirar-nos dali. Isso viria a acontecer em finais de Janeiro de 1968, altura em que fomos colocados em Montepuez. Apesar de ser na província de Cabo Delgado, era mais a sul e, por isso, uma zona bastante mais calma. Com o sentido de missão cumprida, desembarquei em Lisboa no dia 14 de Março de 1968.
PERFIL
Nome: António Teixeira dos Santos
Comissão: Moçambique (1966/1968)
Força: Batalhão de Caçadores 1878
Actualidade: Hoje, 65 anos, em Viana do Castelo
"UM ANO EM COMBATE ABERTO"
António Teixeira dos Santos nasceu em Junho de 1944 em Calheiros, Ponte de Lima, e foi combatente em Moçambique durante "dois anos, dois meses e dois dias", entre 12 de Janeiro de 1966 e 14 de Março de 1968. Integrou o Batalhão de Caçadores 1878, que esteve um ano em zona de paz, em Mocuba, na Zambézia, e "um ano e dois meses numa área de guerra aberta", na Missão de Nangulolo, em Mueda, na província de Cabo Delgado. António Santos, que hoje é taxista em Viana do Castelo, foi, em Moçambique, soldado da Companhia de Comando e Serviços, tendo a especialidade de Minas e Armadilhas. Ingressou nas fileiras do Exército a 3 de Agosto de 1965, tendo feito a recruta no GACA-3, em Espinho.
Tragédia. Um erro de um alferes, ao fazer as operações de segurança da G3, provocou o maior drama da minha comissão, uma semana após a chegada.
Integrado na 1ª Companhia do Batalhão de Artilharia 6221, depois de ter tirado a recruta no RI 5 das Caldas da Rainha, parti como furriel mecânico para a Beira, em Moçambique, no Domingo de Páscoa de 1973, a bordo de um Boeing 747 da TAP. A Beira era então um verdadeiro paraíso, com uma zona de praia, hotéis e esplanadas, chamada Estoril, e muitas loirinhas de ascendência inglesa, da vizinha Rodésia. A minha companhia rumou para Canxixe, ao norte da Gorongosa, onde nunca tinha havido militares. A região tinha um administrador branco, duas cantinas monhés, uma Escola Primária e muitas palhotas.
Nós ficámos instalados num antigo barracão, onde guardavam o algodão, e cortámos dois hectares de mata cerrada, vedando este espaço com arame farpado e instalando tendas onde dormiam os soldados. Apenas uma semana depois da nossa chegada, sucedeu a maior tragédia na companhia. O alferes Almeida, que era um ranger formado em Lamego, comandou um pelotão numa saída à noite em três viaturas Unimog. Quando chegaram, o oficial mandou formar para a operação de segurança – consistia em tirar o carregador da G3, puxar a culatra atrás para tirar a bala da câmara, soltar a culatra e dar uma gatilhada para confirmar que não ficara qualquer bala.
Tudo seria perfeito se o alferes não tivesse feito a operação sem tirar o carregador.
Como o cano da sua arma trazia uma granada terrivelmente eficaz, chamada dilagrama, esta explodiu ali mesmo, fragmentando-se em milhares de partículas que atingiram, não só o pelotão, mas todos quantos estavam de pé no aquartelamento, a começar pelo malogrado alferes que morreu de imediato. Eu tinha acabado de adormecer a escrever uns aerogramas, quando acordei com o estrondo. À porta do barracão estava o furriel Balsa, a pedir socorro, que de imediato caiu sem vida, com perfurações nos pulmões. Saímos para a rua e deparámo-nos com um cenário macabro, com quase três dezenas de corpos espalhados pelo chão, entre sangue, gritos, sofrimento, vida e morte misturadas.
O Carvalhais e os seus enfermeiros eram impotentes para acudir a todos, não tinham meios, nem medicamentos. Os nossos camaradas iam morrendo durante a noite. O meu camarada das transmissões, o furriel Carvalho, passou a noite no rádio e parece que ainda hoje o oiço a dizer: ‘Moka nova, moka nova, aqui companhia em delta, unidade, escuto.’ Tudo em vão. Não estava ninguém no ar e ficámos entregues à nossa sorte. O Henrique Vilela, também das transmissões, atingido no seu posto, parecia não ter cabeça, só um buraco ensanguentado. Era quem mais gritava, mas sobreviveu, ao contrário de outros que parecia nada terem.
Para todos quantos a vivemos, aquela foi a noite mais terrível e pavorosa das nossas vidas e dificilmente algum a poderá esquecer. Só no dia seguinte, pelas 11h00, tivemos ajuda e os feridos foram evacuados de avião a partir da pista de terra. Os mortos foram 12 e os feridos 18, deixando a companhia reduzida a dois terços. O drama, porém, ainda não acabara. Já que demoraram 15 dias a chegar as urnas e, com o clima africano, os corpos ficaram inchados, em decomposição. Valeram os mais loucos da companhia, semi-ébrios, para fazer entrar os corpos nos caixões.
Uma outra noite, os graduados operacionais tinham ido a Canxixe para uma festa, quando comecei a ouvir os nossos sentinelas a disparar as G3. Cansei-me de gritar para que cessassem fogo. Quando o consegui, ouvimos o som de metralhadoras pesadas Matsen e percebemos que estávamos a ser atacados. Conseguimos fazer regressar os nossos camaradas e do ataque ficaram apenas uns buracos nas paredes. Em Agosto de 1973, passei as férias na Beira, com o Carvalhais. Rebentou uma epidemia de cólera terrível, que fez milhares de mortos em Canxixe. O Carvalhais abasteceu-se de soro e vacinas e, no regresso, encontrámos o aquartelamento num caos. Foi possível salvar muita gente e só morreu mais uma pessoa. No pico da época de cheias, tornou-se impossível fazer o reabastecimento. Foi um período difícil de fome, em que estivemos limitados a umas maçarocas de milho.
Deu-se então o 25 de Abril, que acompanhámos entusiasmados via rádio, na expectativa de voltarmos à nossa terra rapidamente. Mas só mais tarde haveria paz e conheceríamos o outro lado da guerra, contactando os guerrilheiros da Frelimo.
PERFIL
Pedro Mateus Guerra, 57 anos, 1.ª Companhia do Batalhão de Artilharia 6221, Moçambique (1973/74)
TROPA TRAVOU ENSINO SUPERIOR
Pedro Mateus Guerra é natural e residente em Benedita, Alcobaça. É o mais velho de quatro irmãos e perdeu o pai aos nove anos. Esteve no Seminário, em Santarém, mais foi obrigado a sair, aos 14 anos, para ajudar ao sustento da família. Trabalhou na produção de cogumelos, foi madeireiro, taqueiro e empregado de escritório. Queria ingressar no Ensino Superior, mas a vida militar travou-_-lhe o sonho. Hoje é armazenista de materiais de construção civil, pai de três filhos e participante activo nos órgãos políticos e sociais do concelho de Alcobaça.
Vinte e tal militares ficaram feridos Numa explosão. Eu fui projectado 35 metros contra rochedos. A nossa força ficou reduzida a 4 elementos.
Quando fui mobilizado para a tropa, em Janeiro de 1963, andava a estudar na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, a tirar o curso de Regente Agrícola, que tive de interromper. Passados dez meses, a 10 de Outubro, embarquei no navio ‘Pátria’ com destino a Moçambique. Tinha 23 anos e era alferes miliciano, com o curso de Minas e Armadilhas feito em Tancos.
Passei a maior parte da comissão, de 30 meses, integrado no Batalhão de Caçadores (BC) 598, em Vila Cabral, na província de Niassa, o chamado ‘estado de minas gerais’, tal era a quantidade destes explosivos colocados por todo o lado. No fim, estive três meses em Vila Pery, onde não havia guerra, no BC 558, que se tinha retirado da região de Mueda. Ao chegar a Lourenço Marques, a primeira sensação foi boa, porque tínhamos gente à nossa espera e houve festa. Depois seguimos de barco até ao porto de Nacala, num dia de chuva terrível, e aí apanhei a primeira decepção, porque não havia sequer um guindaste nas instalações. Ainda viajámos mais um dia, agora de comboio, a atravessar a província de Niassa. Foi a desilusão. 'Então, isto é Portugal?'
A nossa sorte, porque fomos sem qualquer tipo de preparação – davam-nos umas botas e um camuflado e toca a andar, porque eram precisos soldados –, foi termos estado sete meses sem entrar em operações, o que nos permitiu ter conhecimento do terreno. Depois começaram a aparecer as minas e a situação agravou-se na província do Niassa, que é uma vez e meia maior do que Portugal. Na altura estava lá apenas o comando do batalhão e serviços – éramos meia dúzia de gatos pingados –, que de seguida foi reforçado por uma companhia.
No tempo em que estive em Moçambique, apenas sofremos dois ou três ataques directos. O principal problema era as minas. Os guerrilheiros punham-nas nas picadas e, quando íamos a passar nas viaturas, à menor distracção elas rebentavam. Quando dávamos por elas, levantávamo-las. Eu era especialista, porque era sapador. Em toda a comissão o meu grupo detectou 460 e tal minas, levantámos 43 e três acabaram por rebentar mesmo. Nas nossas deslocações éramos sempre surpreendidos por minas. Quando víamos a terra remexida ou alguma coisa estranha, saíamos das viaturas e começávamos a picar o chão com as facas de mato para ver se descobríamos algum objecto.
Numa operação que fizemos em conjunto com os fuzileiros e uma companhia de caçadores, na aldeia de Miendica, que tinha sete quilómetros de comprimento, com uma palhota aqui e outra acolá, aconteceu sermos atacados. Quando estávamos de saída – após uma acção psicossocial com a população –, a meio da povoação, sofremos uma emboscada. Tivemos de saltar das viaturas e começámos a disparar sem saber para onde, porque não víamos ninguém. De seguida, fizemos uma busca à aldeia e não encontrámos vivalma. Não estava lá uma única pessoa, toda a gente tinha desaparecido no mato. A maioria das operações era assim. Eles atacavam de surpresa e nós éramos surpreendidos.
Acabei também por ser ferido devido ao rebentamento de uma mina. Nesse dia, em 1965, numa picada – onde tinha andado nos últimos 15 dias em patrulhamento, passando tudo a pente fino sem encontrar nada – foi atacado um pelotão que ia render o meu, pela hora do almoço. Nessa manhã, por esta circunstância, nós não tínhamos saído, mas ao sabermos do ataque fomos em socorro dos nossos camaradas, porque conhecíamos bem a zona. Em consequência do rebentamento de uma mina, debaixo de uma Unimog, ficaram feridos 20 e tal militares, que foram evacuados. O condutor ainda viu a terra remexida e tentou fazer um ziguezague, mas já não foi a tempo de evitar a explosão. O nosso grupo de combate ficou reduzido a quatro homens e duas viaturas ficaram desfeitas. Eu fui projectado 35 metros pelo ar contra uns rochedos e fiquei ferido do lado esquerdo do corpo e na cabeça. Socorreram-me, regressei à base e fui evacuado de avioneta para o Hospital da Beira. A mina cavou uma vala em que cabia uma viatura. Este ataque aconteceu próximo da Missão dos Anglicanos, na estrada entre a base da Marinha e Nova Coimbra. No final da minha comissão – em que também estivemos destacados no mato durante três meses a construir uma ponte no Lunho – o balanço era terrível. Do meu grupo de combate, constituído por 31 homens, morreram 14 e sete ficaram mesmo num cemitério de lá. Um deles morreu-me no colo. Regressei à Metrópole em Março de 1966, no navio ‘Vera Cruz’.
PERFIL
Nome: António Horácio Gomes
Comissão Moçambique (1963/1966)
ForçaBatalhões de Caçadores 598 e 558
Actualidade: Hoje, aos 69 anos, em Leiria
TRANSFERIDO DE BATALHÃO
Em Novembro de 1965 fui transferido, por motivos disciplinares, para o BC 558, que estivera em Mueda, que fui integrar quando já estava em Vila Pery. Fui nomeado com mais dois alferes para um auto, porque tinha desaparecido um cantil. O tenente Carvalho Araújo – morto mais tarde numa saída nocturna, num ataque dos guerrilheiros e que eu fui buscar –, deu-nos cinco dias de prisão, o que equivalia a mudança de batalhão. Era para ir para Mueda, porque o meu camarada que estava lá – o antigo comandante da GNR de Viseu, agora coronel Antunes – fora ferido ao levantar uma mina.
"Mataram 30 nativos à catanada"Passámos por muito sofrimento. É triste recordar, mas tínhamos dias em que não comíamos. Tudo era escasso, até a água faltava. Eu acabei por ser ferido na noite da véspera de Natal de 1962, quando fomos buscar mantimentos.
Embarquei a 3 de Junho de 1961 no navio Vera Cruz, onde seguiram três mil homens de várias unidades. A Companhia de Artilharia 120 era comandada pelo capitão José Carlos Mesquita Lavado. Atracámos em Luanda a 12 de Junho e fomos para Grafanil. Passados seis dias seguimos de comboio para Malanje, onde chegámos no dia 20, ficando instalados no quartel de Caçadores Especiais.
Ao fim de cinco dias rumámos para Duque de Bragança, onde ficou o comando e metade da companhia, baptizada de ‘Palancas Negros’. O meu pelotão foi para Forte da República, sob o comando do alferes José Filipe de Mendonça Carvalhosa, e outro para Cuale, às ordens do alferes Otelo Saraiva de Carvalho.
O meu quartel era simples. Ficávamos num barracão e íamos todos os dias patrulhar e garantir a segurança dos negros que andavam na cultura do algodão. Havia várias sanzalas (conjunto de palhotas), mas pouco mais de dezena e meia de brancos. Era um ponto estratégico, pela importância do algodão para a economia do país.
A 20 de Julho deu-se o primeiro ataque. Fomos acordados para ir socorrer uma sanzala, que estava a ser assaltada pelos próprios indígenas. A luta era entre os que queriam ficar e os que desejavam sair, sendo os primeiros as principais vítimas. Quando chegámos só vimos corpos queimados e esquartejados à catanada. Eram uns 30.
No dia 6 de Agosto, pelas 13h00, sofremos uma emboscada da UPA (União dos Povos de Angola), quando seguíamos numa coluna com três viaturas e vinte homens numa picada, em Camabatele. Eu seguia numa GMC (carro pesado) com 12 camaradas – entre eles o ‘Pinguinhas’, o ‘Jojó’ e o ‘Quarentinha’ – quando avistámos alguns negros em cima de árvores e de imediato a viatura caiu num buraco. A cabina ficou quase enterrada na ratoeira. O tiroteio durou alguns minutos. O inimigo tinha canhangulos (uma arma artesanal) e catanas – e nós a espingarda Mauser – e foi o salve-se quem puder. Os negros mandavam-nos água para cima e gritavam que as nossas balas eram água e não matavam. Poucos escaparam no combate. Morreram onze. Depois deste ataque fui para Cuale, para proteger os trabalhadores no algodão. Passados dois meses, o soldado ‘Algés’ morreu num acidente, quando regressava com mantimentos e correio de Malanje. Ficou debaixo do jipe que capotou. Foi sepultado em Duque de Bragança.
Em Agosto de 1962 embarcámos para São Salvador do Congo e ficámos aquartelados em Quiende. No dia 24 de Dezembro de 1962, quando fomos à primeira localidade buscar mantimentos para passarmos o Natal, fui ferido. Eram 21h00 quando, ao atravessarmos uma pequena ponte de ferro, passaram os dois primeiros jipes, mas a viatura onde eu seguia fez rebentar uma mina do lado direito. Ficou ferido no joelho o condutor, Marcelino Venâncio (o ‘Malveirão’) e eu num braço e na cara.
O rádio das viaturas não conseguia fazer chegar o sinal de socorro ao nosso acampamento, mas ao fim de sete horas apareceu um pelotão para nos ajudar, comandado pelo já tenente Otelo Saraiva de Carvalho.
No primeiro semestre de 1963, o que mais me impressionou foi a morte de um camarada de outra companhia – um soldado negro integrado nas patrulhas conjuntas que fazíamos – numa emboscada, que ficou com as duas pernas desfeitas, por causa da explosão de uma mina, quando seguia numa Unimog. Próximo de Quiende, o rebentamento de outra mina provocou quatro feridos ligeiros. Uma terceira mina atingiu uma patrulha que seguia numa picada, causando um ferido grave, o sargento Bezerra, que foi evacuado para a metrópole.
Encontrei várias vezes o meu irmão, Joaquim Carlos Simões – seis anos mais novo – em São Salvador do Congo, que estava no Batalhão de Caçadores Especiais 357. Entrou para a tropa como voluntário em 1961 e foi para Angola a 28 de Abril de 1962. A maior alegria foi encontrá-lo. Ele estava em Cuimba, a 40 km de São Salvador do Congo, na Companhia de Caçadores Especiais 307, e eu a 30 km. Combinávamos encontros quando íamos buscar géneros. No batalhão dele, quinze dias após terem chegado, morreram sete militares.
FEZ MOLDES PARA MATERIAL DE GUERRA NA ALEMANHA
Tadeu Conceição Simões nasceu em Ferrel, Peniche. Antes de cumprir serviço militar foi agricultor. Quando regressou de Angola à sua terra natal, emigrou para França, onde esteve nove anos, trabalhando numa fábrica de vidro, e seis anos na Alemanha, onde laborou numa empresa de moldes para material de guerra. Em 1978 voltou definitivamente a Portugal, dedicou-se à avicultura e foi proprietário de aviários. Tirou o 2.º ano num curso de certificação de adultos, actualizando o diploma da 4.ª classe. Está reformado há cinco anos. É casado há 45 anos, tem um filho de 42 anos e uma filha de 33. No âmbito militar fez a recruta em Queluz, no Regimento de Artilharia Anti-Aérea Fixa, em 1960. Três meses depois passou a pronto e foi para o Quartel-General do Exército, em Lisboa. Desempenhou funções na messe de oficiais até ser mobilizado para Angola.